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Pilar 03 · Tecnologia Aplicada

Uma Breve História da Internet

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TL;DR

Ninguém inventou a internet sozinho. Da ARPANET de 1969 ao TCP/IP de Cerf e Kahn, do DNS à web de Tim Berners-Lee, do Mosaic à bolha do .com, do iPhone à nuvem e à IA: quem contribuiu com o quê, o mito da guerra nuclear e como a internet chegou ao Brasil.

Uma Breve História da Internet

Resposta direta: ninguém inventou a internet sozinho. Ela é o resultado de décadas de trabalho de muita gente. Nos anos 1960, a ARPA, agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA, financiou a ARPANET, cuja primeira mensagem saiu da UCLA em 29 de outubro de 1969. Em 1974, Vinton Cerf e Robert Kahn publicaram as bases do TCP/IP, e em 1º de janeiro de 1983 a ARPANET passou a usar esse protocolo, data que muita gente trata como o nascimento da internet como a conhecemos. A World Wide Web, criada por Tim Berners-Lee no CERN a partir de 1989, é outra coisa: um serviço que roda sobre a internet. No Brasil, o primeiro acesso permanente à internet aconteceu em 1991, e a internet comercial começou em 1995.

Já parou pra pensar COMO a Internet te possibilita ter o conhecimento humano ao alcance da mão, a comunicação instantânea com qualquer canto do planeta e um universo de entretenimento em nossos bolsos?

Seria a Internet uma invenção de uma única “mente brilhante”?!

Será que Albert Arnold Gore Jr., ex-vice-presidente dos EUA, estava tão errado em sua famosa (e satirizada) afirmação de ter “tomado a iniciativa de criar a internet”?

Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA
Al Gore inventou a internet? Fonte: Forbes.

A frase exata, numa entrevista à CNN em março de 1999, foi: “Durante o meu mandato no Congresso dos Estados Unidos, eu tomei a iniciativa de criar a internet”. Em 2000, os próprios Robert Kahn e Vinton Cerf, que desenharam o TCP/IP, saíram em defesa dele: escreveram que ninguém, nem um pequeno grupo, “inventou” a internet sozinho, que Gore não quis dizer que a inventou e que ele foi o primeiro político a reconhecer a importância da rede e a apoiar o seu desenvolvimento, inclusive com a lei de computação e comunicação de alto desempenho de 1991 (texto de Kahn e Cerf).

Ou Tim Berners-Lee (foto abaixo), o “pai da World Wide Web” (além do HTTP, HTML e URL) é de fato o único merecedor do título?

Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web
Tim Berners-Lee. Fonte: CERN.

A resposta é mais complexa do que parece.

O fato é que esta história levou décadas de avanços graduais, de cientistas e engenheiros que construíam os pilares de uma revolução que mudaria o mundo.

Se preferir, ouça a versão em podcast no Spotify, o episódio “Uma Breve História da Internet”, publicado em 23 de julho de 2025:

NOTA IMPORTANTE: Esse conteúdo me levou algumas semanas entre pesquisa, roteirização, escrita e ajustes. O tema viraria um livro com tranquilidade, são muitos fatos, disputas, entrelaços históricos e eventos. Esse conteúdo é um dos quais tenho muito carinho e será atualizado com frequência. Caso tenha qualquer sugestão, é só me contactar por qualquer canal de atendimento. Forte abraço e enjoy!

Então vem comigo, vamos começar pelo início (rsrs).

Quem Contribuiu para a História da Internet (Resumo)

Antes da viagem completa, um resumo de quem fez o quê. Cada nome aparece com mais contexto ao longo do texto:

  • J.C.R. Licklider: em 1962, descreveu em memorandos a ideia de uma “Rede Galáctica” de computadores interligados e foi o primeiro chefe do programa de pesquisa em computação da ARPA.
  • Leonard Kleinrock: publicou em 1961 o primeiro artigo sobre a teoria da comutação de pacotes; o laboratório dele, na UCLA, foi o primeiro nó da ARPANET.
  • Paul Baran (RAND) e Donald Davies (NPL): chegaram, cada um do seu lado do Atlântico, à ideia de quebrar as mensagens em blocos. A palavra “pacote” veio de Davies.
  • Lawrence Roberts: planejou a ARPANET na ARPA, a partir de 1966.
  • Robert Kahn e Vinton Cerf: criaram o TCP/IP, o conjunto de protocolos que permite que redes diferentes conversem entre si.
  • Ray Tomlinson: criou o e-mail entre computadores em rede e escolheu o “@” para separar o usuário da máquina.
  • Paul Mockapetris: inventou o DNS, o sistema que traduz nomes de domínio em endereços IP.
  • Tim Berners-Lee e Robert Cailliau: criaram a World Wide Web no CERN; Berners-Lee escreveu o HTML, o HTTP, a URL, o primeiro navegador e o primeiro servidor web.
  • Marc Andreessen e Eric Bina: criaram o navegador Mosaic, que levou a web para o grande público; Andreessen depois cofundou a Netscape.
  • Jerry Yang e David Filo: fundaram o Yahoo! em 1994, um diretório de sites que ajudava as pessoas a encontrar o que existia na web quando ainda não havia buscadores como os de hoje.
  • Larry Page e Sergey Brin: fundaram o Google em 1998 e mudaram a forma de buscar na web com o PageRank.
  • Jack Dorsey, Noah Glass, Biz Stone e Evan Williams: criaram o Twitter em 2006, que popularizou a informação em tempo real na rede.
  • Al Gore: como político, apoiou a expansão da rede e a lei de 1991 que financiou redes de alta velocidade.

A Gênese da Internet: O Medo e a Visão (Décadas de 1950 e 1960)

A gênese da internet é, ironicamente, um subproduto da Guerra Fria.

Após o lançamento do Sputnik I pela União Soviética em 1957, os Estados Unidos sentiram uma urgência em assegurar a superioridade tecnológica.

Para isso, foi criada a Advanced Research Projects Agency (ARPA), em fevereiro de 1958, para investir em pesquisa de alto risco e alto retorno (DARPA).

Ao mesmo tempo, os militares tinham um temor concreto: a vulnerabilidade dos sistemas de comunicação centralizados. Um único ataque nuclear poderia desativar a rede telefônica e paralisar a resposta do país.

A solução estudada era uma rede de comunicação sem um núcleo central, sem pontos únicos de falha, capaz de sobreviver a um ataque.

Foi nesse cenário que o conceito de comutação de pacotes (packet switching), a tecnologia fundamental por trás da internet, surgiu de forma independente em mais de um lugar, quase ao mesmo tempo.

Nos EUA, Paul Baran, engenheiro da RAND Corporation, propôs no começo dos anos 1960 uma arquitetura de rede distribuída, publicada em 1964 na série On Distributed Communications, em que as mensagens seriam quebradas em “blocos de mensagem” padronizados e enviadas por múltiplas rotas (RAND).

Se uma parte da rede fosse destruída, os blocos simplesmente seriam redirecionados, garantindo que a mensagem chegasse ao destino.

No MIT, Leonard Kleinrock publicou em julho de 1961 o primeiro artigo sobre a teoria da comutação de pacotes, e em 1964 o primeiro livro sobre o assunto (Internet Society).

Paralelamente, no Reino Unido, Donald Davies, cientista da computação do National Physical Laboratory (NPL), chegou a um sistema semelhante em 1965.

Sua motivação era diferente: a busca por eficiência na comunicação entre computadores, que enviam dados em “rajadas” intermitentes, o que torna ineficiente o método tradicional de comutação de circuitos telefônicos (que exige uma conexão dedicada e ininterrupta).

Foi Davies quem cunhou o termo “pacote” para descrever essas pequenas partes de dados, num artigo de junho de 1966 (entrevista de Davies). E foi a equipe dele no NPL, com Roger Scantlebury e Keith Bartlett, que usou a palavra “protocolo” pela primeira vez, que se tenha registro impresso, no contexto de comunicação de dados, num memorando de abril de 1967.

O grupo de Davies também construiu a rede de pacotes do NPL, que entrou em operação em 1970 e serviu como rede local do próprio laboratório (Campbell-Kelly, IEEE Annals of the History of Computing, 1987).

Um esclarecimento importante. Na primeira versão deste texto, em julho de 2025, eu contei a origem da ARPANET pelo medo de um ataque nuclear. A história é mais sutil: segundo a Internet Society, num texto assinado por Cerf, Kahn, Kleinrock, Roberts e outros pioneiros, só o estudo da RAND sobre voz segura tratava de guerra nuclear. A ideia de que a ARPANET foi construída para resistir a um ataque nuclear é um boato que nunca foi verdade para a ARPANET (Internet Society). O objetivo dela era compartilhar recursos de computação entre centros de pesquisa. A robustez entrou mais tarde, no projeto da interligação de redes.

Bom, voltando aos Estados Unidos.

Apesar do ímpeto militar, a cultura dentro da ARPA, especialmente no seu Information Processing Techniques Office (IPTO), era primordialmente acadêmica e não restritiva, muito devido à influência de Joseph C.R. Licklider (foto do Licklider abaixo).

Joseph Carl Robnett Licklider
Joseph C.R. Licklider, o homem que imaginou a Internet.

Licklider, um psicólogo e cientista da computação, já havia articulado em 1960 sua visão de uma “Simbiose Homem-Computador”.

Em agosto de 1962, ele descreveu em uma série de memorandos o conceito de uma “Rede Galáctica”, onde computadores globalmente interconectados permitiriam acesso rápido a dados e programas de qualquer lugar. Em outubro do mesmo ano, assumiu o programa de pesquisa em computação da ARPA e convenceu os sucessores dele da importância dessa ideia (Internet Society).

Esse ambiente de liberdade gerou inovações radicais, incluindo os alicerces da ARPANET (a rede de computadores desenvolvida pela agência ARPA).

Mas, apesar do avanço teórico, a ideia da comutação de pacotes enfrentou ceticismo e resistência da indústria telefônica, acostumada com os sistemas de comutação de circuitos.

Uma resistência que se provaria cara à medida que a revolução da internet se desenrolava.

E é justamente aqui que vamos desbravar os avanços práticos.

Continua comigo!

A ARPANET: O Nascimento e o Propósito Inesperado (1969 a 1983)

No dia 29 de outubro de 1969, aconteceu algo que mudaria a história da comunicação mundial: a primeira mensagem enviada pela ARPANET entre dois computadores distantes (ICANN).

Essa conexão pioneira uniu a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) ao Stanford Research Institute (SRI), em Menlo Park (também na Califórnia).

Curiosamente, durante essa primeira conexão, o programador Charley Kline, estudante do laboratório de Kleinrock, tentou enviar a palavra “LOGIN”, mas após digitar apenas as letras “L” e “O”, o sistema do SRI travou.

Assim, de maneira simbólica e involuntária, a primeira mensagem enviada pela ARPANET acabou sendo simplesmente “LO”. Cerca de uma hora depois, com o sistema reiniciado, o “LOGIN” completo passou.

Ainda em 1969, a ARPANET se expandiu e, no final do ano, já contava com quatro nós conectados: (1) UCLA, (2) SRI, a (3) Universidade da Califórnia em Santa Barbara (UCSB) e a (4) Universidade de Utah, em Salt Lake City.

Todavia, a conexão entre diferentes tipos de computadores de grande porte (os chamados “hosts”) era um desafio significativo.

Para resolvê-lo, a empresa Bolt, Beranek and Newman (BBN) criou dispositivos especializados chamados Interface Message Processors (IMPs).

Esses equipamentos, ancestrais diretos dos roteadores atuais, eram minicomputadores Honeywell DDP-516 que realizavam a função crítica de comutação de pacotes, permitindo aos hosts focarem exclusivamente em suas atividades de pesquisa.

Unidade de controle do minicomputador Honeywell DDP-516
Control unit for Honeywell DDP 516 computer, 1966-1970. Fonte: SMG.

Na época, o protocolo responsável pela comunicação dentro da rede era o Network Control Protocol (NCP), concluído em dezembro de 1970.

Contudo, o NCP apresentava uma limitação crucial: era capaz de operar apenas dentro do ambiente homogêneo da ARPANET, sem capacidade para se conectar a outros tipos de redes emergentes, como as redes de rádio por pacotes e as redes via satélite.

Foi justamente este desafio que motivou um avanço revolucionário!

Em 1974, Robert Kahn, da DARPA (a ARPA ganhou o “D” de Defesa no começo dos anos 1970), e Vinton Cerf, então na Universidade de Stanford, publicaram o artigo “Um Protocolo para Intercomunicação de Redes de Pacotes” (título original: A Protocol for Packet Network Intercommunication), lançando as bases do que viria a ser o TCP/IP. O artigo original está disponível neste PDF.

No artigo de 1974, havia um protocolo só, chamado TCP, que fazia tudo. Com os primeiros testes, ficou claro que nem toda aplicação precisava da entrega garantida, e o protocolo foi reorganizado em duas camadas: o Internet Protocol (IP), encarregado de endereçar e encaminhar pacotes individuais entre redes, e o Transmission Control Protocol (TCP), que cuida da conexão confiável, controlando o fluxo e recuperando pacotes perdidos.

Essa divisão refletia uma ideia central do projeto: cada rede continuaria do seu jeito, os equipamentos que ligam as redes (depois chamados de gateways e roteadores) não guardariam informação sobre as conversas que passam por eles, e não haveria controle global da operação (Internet Society). A inteligência ficava nas pontas, nos computadores que conversam.

Assim, novas redes poderiam se juntar facilmente, sem autorização prévia.

Depois de anos de testes, o Departamento de Defesa dos EUA adotou o TCP/IP como padrão.

Isso levou ao famoso “Flag Day”, em 1º de janeiro de 1983, quando a ARPANET abandonou oficialmente o NCP em favor do TCP/IP.

Essa data é tratada por muita gente como o nascimento da Internet como a conhecemos hoje: uma rede de redes, interconectada no mundo todo.

Embora o objetivo inicial da ARPANET fosse o compartilhamento de recursos computacionais, logo ficou evidente que seu uso principal era, inesperadamente, a comunicação entre pessoas.

Um exemplo marcante disso ocorreu em 1971, quando o programador Ray Tomlinson (foto abaixo), da BBN, criou um programa para enviar mensagens entre computadores diferentes da rede (Internet Hall of Fame).

Ray Tomlinson, criador do e-mail em rede
Raymond Samuel Tomlinson em 2009. Fonte: Bloomberg.

Para separar o nome do usuário da máquina host, ele escolheu o símbolo “@”, dando origem ao endereço de e-mail como conhecemos.

A adoção do e-mail foi massiva e transformadora!

Em 1972, Lawrence Roberts escreveu o primeiro programa para listar, ler, arquivar, encaminhar e responder mensagens, e o e-mail virou a maior aplicação da rede por mais de uma década (Internet Society).

Esse fenômeno mostrou claramente uma demanda por comunicação digital entre pessoas que os criadores da ARPANET não haviam imaginado.

Rapidamente surgiram também as listas de discussão, fortalecendo o papel social da ARPANET.

A rede deixou de ser apenas uma ferramenta técnica para se tornar um espaço de interação humana.

Mas, à medida que crescia, desafios técnicos como a escalabilidade e a padronização tornaram-se evidentes!

Os nomes das máquinas eram resolvidos por consulta a um arquivo “hosts.txt”, equivalente a uma lista telefônica (se é que você já viu uma), mantido de forma totalmente manual (tanto a atualização quanto a distribuição).

Nesse arquivo existia uma lista extensa de endereços IP e nomes de hosts, mantida pelo Network Information Center do SRI (SRI-NIC).

O arquivo era baixado para cada máquina, via FTP (File Transfer Protocol), e consultado pelo sistema operacional antes mesmo do início da conexão.

Com o crescimento da rede, diversos problemas começaram a aparecer:

  • Indisponibilidade do “hosts.txt” por qualquer falha nos computadores do SRI-NIC;
  • Falhas humanas na atualização do arquivo (problemas com nomes de hosts);
  • Demora para cada atualização chegar a todas as máquinas.

Chegamos, então, ao ponto em que a gestão manual dos nomes ficou impraticável, levando Paul Mockapetris (foto abaixo também, pra você conhecê-lo), do ISI da Universidade do Sul da Califórnia, a criar o Domain Name System (DNS), especificado em novembro de 1983 (RFC 882).

Paul Mockapetris, criador do DNS
Paul Mockapetris. Fonte: ParcelaDigital.

Esse sistema (DNS), hierárquico e distribuído, tornou a internet mais acessível ao traduzir nomes de domínio amigáveis em endereços IP numéricos.

Isto é, você poderia agora acessar o conteúdo em “felipecferreira.com.br” sem precisar depender da lista “hosts.txt” ou decorar um IP como o “192.168.0.10” (exemplo puramente ilustrativo e didático).

Como esse nome vira endereço na prática, dentro de uma URL, eu explico em Desvendando a URL: Como a Web se Comunica.

Desta forma podemos notar que a ARPANET foi muito além do que seus criadores tinham planejado.

Esse episódio inicial e sua trajetória exemplificam um tema recorrente na história da tecnologia:

Usuários frequentemente redefinem o propósito original das inovações!

Seguindo a nossa caminhada histórica, agora vamos analisar o BOOM da Internet, e o que causou a bolha do “.com” logo na virada do milênio.

A Grande Explosão: A Web, os Navegadores e a Bolha (1990 a 2001)

Com a ARPANET cada vez mais dividida entre usos militares e de pesquisa, o mundo acadêmico precisava de uma nova espinha dorsal de alta velocidade.

Nesse sentido, a National Science Foundation (NSF) entrou em cena com o programa NSFNET, a partir de 1985, ligado a centros de supercomputação.

A NSFNET foi pensada para servir a toda a comunidade de pesquisa e educação e, crucialmente, tornou o TCP/IP obrigatório para as redes do programa (Internet Society).

Essa decisão consolidou o domínio do TCP/IP, criando um vasto ecossistema interoperável e preparando o terreno para a comercialização. A própria ARPANET foi desativada em 1990.

Inicialmente, a espinha dorsal da NSFNET operava sob uma Política de Uso Aceitável (AUP) que proibia o uso para fins que não fossem pesquisa e educação.

Mas o sucesso da rede e a crescente demanda da indústria privada geraram uma pressão imensa, e redes comerciais de longa distância foram surgindo em paralelo.

Em abril de 1995, a NSF deixou de financiar a espinha dorsal da NSFNET, e as redes regionais passaram a comprar conectividade das redes comerciais privadas.

Essa mudança marcou a privatização da espinha dorsal da internet e o fim da era do financiamento direto do governo para sua operação.

Mas o que realmente impulsionou a internet para o público em massa foi a invenção de Tim Berners-Lee (a lenda) no CERN, sigla de Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear).

Tim Berners-Lee, Robert Cailliau e Nicola Pellow no CERN
Tim Berners-Lee (right), Robert Cailliau (left) and Nicola Pellow (top right), internet pioneers at the birth of the WWW (1993). Fonte: CERN on Threads (2024).

Em março de 1989, Berners-Lee escreveu a primeira proposta do que viria a ser a web, frustrado com a dificuldade de compartilhar informações entre pesquisadores que usavam computadores incompatíveis (CERN).

Ele vislumbrou um sistema de informação universalmente ligado, isto é, uma “teia” de documentos de hipertexto acessível por qualquer pessoa, de qualquer lugar. Em novembro de 1990, com o engenheiro belga Robert Cailliau, a proposta virou um projeto formal.

Até o fim de 1990, ele já tinha no ar, no CERN, as tecnologias fundamentais da World Wide Web (www):

  • HyperText Markup Language (HTML): linguagem para criar (e ler) páginas web;
  • Uniform Resource Locator (URL): sistema de endereçamento para acessar conteúdos online;
  • Hypertext Transfer Protocol (HTTP): protocolo para solicitação e entrega de dados entre navegadores e servidores web.

Ele também escreveu o primeiro navegador (chamado “WorldWideWeb”, depois Nexus) e o primeiro servidor web, num computador NeXT. O primeiro site do mundo foi o info.cern.ch.

Em uma decisão de importância monumental, o CERN anunciou em 30 de abril de 1993 que o software da World Wide Web estava em domínio público: o CERN abriu mão de todos os direitos de propriedade intelectual sobre o código (CERN).

Esse ato de “altruísmo tecnológico” evitou que a Web se tornasse um sistema proprietário, sendo absolutamente crítico para sua rápida e aberta adoção global.

No entanto, os primeiros navegadores eram difíceis de instalar e de usar, limitando seu uso a acadêmicos e técnicos do setor.

A “virada de jogo” que transformou a web em um meio de massa veio do National Center for Supercomputing Applications (NCSA), na Universidade de Illinois.

Em 1993, uma equipe com Marc Andreessen e Eric Bina lançou um novo navegador gráfico chamado NCSA Mosaic.

Eric Bina e Marc Andreessen, criadores do navegador Mosaic
Com muita dificuldade encontrei esta imagem, ampliei com IA e inseri os nomes. Adaptado de Digisaurier.

Já existiam outros navegadores, como o Viola e o Erwise. A grande diferença do Mosaic foi ser fácil de instalar e ser o primeiro navegador publicado a mostrar as imagens automaticamente junto com o texto, como numa revista (NCSA). Antes, o mais comum era abrir as imagens separadamente, o que levava a uma péssima UX.

Tela do navegador NCSA Mosaic
Fonte: Thedayintech.

Essa inovação aparentemente simples teve um impacto profundo, transformando a web de um sistema de recuperação de informações baseado em texto em um meio visualmente mais rico e envolvente.

O Mosaic também reuniu recursos que já vinham de navegadores anteriores, como os botões “voltar”, “avançar” e “início”, e logo ganhou versões para PC e Macintosh, o que facilitou (e muito) o acesso à web.

Com tudo isso na “mesa”, a popularidade do Mosaic EXPLODIU!

No fim de 1993, já havia mais de 500 servidores web conhecidos, e a web respondia por 1% do tráfego da internet, o que parecia muito na época (CERN).

Reconhecendo o imenso potencial comercial, Marc Andreessen deixou o NCSA e, em 1994, cofundou a Netscape Communications, lançando o Netscape Navigator.

Tela do Netscape Navigator 1.0, de 1994
Fonte: WebDesignMuseum.

Ele era mais rápido, mais estável e mais rico em recursos do que o Mosaic, e rapidamente dominou o mercado.

O domínio da Netscape foi percebido como uma ameaça direta pela Microsoft (fundada duas décadas antes, por Bill Gates e Paul Allen), que temia que o navegador evoluísse para uma espécie de sistema operacional multiplataforma, tornando o Windows menos relevante.

Isso desencadeou uma verdadeira “Guerra dos Navegadores”.

O IPO da Netscape, em agosto de 1995, é frequentemente citado como o início da bolha do “.com”: as ações, lançadas a US$ 28, chegaram a US$ 75 e fecharam o primeiro dia a US$ 58 (Computer History Museum).

A Microsoft, inicialmente lenta em reconhecer a importância da internet, mobilizou seus vastos recursos. Em 26 de maio de 1995, Bill Gates enviou aos executivos o famoso memorando interno “The Internet Tidal Wave” (A Onda Gigante da Internet), colocando a internet como prioridade máxima (WIRED), e em 7 de dezembro de 1995 apresentou publicamente a estratégia de internet da empresa.

Para criar o Internet Explorer (IE), a Microsoft licenciou a tecnologia de um navegador derivado do Mosaic, e o IE passou a ser distribuído de graça com o Windows.

Bill Gates nos anos 1990
Bill Gates em meados do lançamento do IE. Não encontramos fonte confiável para esta mídia.

A Microsoft integrou profundamente o IE ao Windows, tornando-o um componente central difícil de remover.

Ela também usou acordos de licenciamento com fabricantes de PCs para garantir que o IE fosse o navegador padrão pré-instalado.

Incapaz de competir com um produto gratuito e pré-instalado na grande maioria dos computadores, a participação de mercado da Netscape entrou em colapso.

Tudo foi tão impactante que, em 1998, o Departamento de Justiça dos EUA moveu um processo antitruste histórico contra a Microsoft. Em 2001, a corte de apelação manteve a conclusão de que a empresa havia mantido ilegalmente o seu monopólio, mas anulou a ordem de dividir a empresa, e o caso terminou num acordo no fim daquele ano (Departamento de Justiça dos EUA).

Quando o caso foi resolvido, a guerra já havia terminado.

O domínio do Internet Explorer era absoluto no começo dos anos 2000.

A Netscape foi comprada pela America Online (AOL), num negócio anunciado em 1998, mas nunca recuperou sua antiga glória.

A euforia em torno da web e o IPO (Initial Public Offering) da Netscape alimentaram uma onda maciça de investimento de capital de risco e especulação em novas empresas baseadas na internet, as “.com”.

De 1995 a 2000, muitas dessas startups não tinham um plano de negócios viável, lucros ou produto final.

A estratégia era “crescer rápido”, capturar “olhos” e construir reconhecimento de marca a qualquer custo, com a suposição de que os lucros viriam depois.

Algo parecido com o que muita gente discute hoje sobre o mercado de Inteligência Artificial (todavia, é assunto para outra oportunidade).

Na virada do milênio, várias empresas surgiram definindo a internet comercial.

Vou citar brevemente em lista as principais abaixo (de acordo com minha pesquisa):

AOL (America Online): 1985, EUA

Fundadores: Steve Case, Jim Kimsey, Marc Seriff e William von Meister.

Diferencial: serviço discado “tudo em um” com interface gráfica, salas de bate-papo e distribuição massiva de CDs que levaram milhões de lares para a rede.

Status: o acesso discado da AOL foi encerrado em 30 de setembro de 2025 (AOL). A marca continua como portal e serviço de e-mail e, desde janeiro de 2026, pertence à italiana Bending Spoons, que a comprou do Yahoo (FFXnow).

Tela inicial do serviço AOL em 1999

Yahoo!: 1994, EUA

Fundadores: Jerry Yang e David Filo.

Diferencial: diretório curado de sites que evoluiu para portal completo (busca, e-mail gratuito, notícias, finanças). Numa web sem buscadores maduros, foi por esse diretório que muita gente aprendeu a encontrar o que existia na rede.

Status: ativo; desde 2021 pertence a fundos administrados pela Apollo Global Management.

Página inicial do Yahoo! no fim dos anos 1990

Amazon: 1994, EUA

Fundador: Jeff Bezos.

Diferencial: começou como livraria on-line, priorizando logística e experiência do cliente; expandiu para a “loja de tudo” e, em 2006, lançou a AWS, que definiu muito do que entendemos hoje por computação em nuvem (cloud).

Status: ativa; uma das maiores Big Techs do mundo.

Jeff Bezos, fundador da Amazon, entre caixas de livros nos primeiros anos da empresa

eBay: 1995, EUA

Fundador: Pierre Omidyar.

Diferencial: leilões C2C (vendas de pessoa para pessoa) que transformaram qualquer usuário em vendedor, sustentados por um sistema de reputação entre pares.

Status: ativo, hoje também marketplace de compras imediatas.

Página inicial do eBay no fim dos anos 1990

Google: 1998, EUA

Fundadores: Larry Page e Sergey Brin.

Diferencial: o algoritmo PageRank, que ordenava páginas pela relevância dos links (um conjunto de algoritmos maravilhosos, com muita matemática e estatística); inaugurou o modelo de anúncios contextuais com o AdWords, em 2000, rebatizado de Google Ads em 2018 (Google).

Status: ativo como parte da Alphabet Inc., líder em busca, publicidade digital e IA.

Página inicial do Google em versão beta, em 1998

Breve Resumo dos Impactos da Bolha do “.com”

A bolha especulativa atingiu seu pico em 10 de março de 2000, quando o índice Nasdaq, de ações de tecnologia, chegou a 5.048 pontos, depois de subir 86% só em 1999 (Goldman Sachs). Então, estourou.

À medida que o capital de risco secou, empresas que estavam queimando dinheiro sem caminho para a lucratividade começaram a falir em massa, e o índice levou anos para voltar ao patamar do pico.

A queda da bolha “.com” não foi uma falha da internet em si, mas uma falha de estratégias de negócios insustentáveis.

Alguns nomes e números:

  • Pets.com (EUA): e-commerce de produtos para animais de estimação. Abriu capital em fevereiro de 2000, captando US$ 82,5 milhões, e fechou as portas nove meses depois, por causa de prejuízos recorrentes (CNBC).
  • Webvan (EUA): supermercado on-line com entrega em casa. Levantou cerca de US$ 800 milhões, perdeu US$ 830 milhões desde a fundação e fechou em julho de 2001 (The Seattle Times).
  • Boo.com (Reino Unido): e-commerce de moda de grife. Queimou US$ 135 milhões de capital de risco em 18 meses e entrou em administração judicial em maio de 2000, com menos de um ano no ar (Quartz).
  • eToys.com (EUA): e-commerce de brinquedos e artigos infantis. Anunciou em fevereiro de 2001 que pediria proteção contra falência, por falta de vendas suficientes (BBC).

Tudo isso foi, sem dúvida, uma correção de mercado dolorosa, mas necessária, que eliminou empresas com modelos falhos e abriu caminho para uma fase mais madura e sustentável de crescimento da internet.

Ufa! Longo caminho, mas agora vamos à atualidade!

A Era Social, Móvel e da Nuvem: A Internet em Nossas Mãos (2002 a 2015)

Após o estouro da bolha “.com”, a internet entrou em uma nova fase, mais dinâmica e pessoal.

O foco mudou de uma web de conteúdo estático (“somente leitura”) para uma web construída sobre conteúdo gerado pelo usuário e interação social (compartilhamentos, salvamentos, comentários etc.).

Essa transformação foi impulsionada por duas revoluções tecnológicas paralelas e interligadas: o smartphone e a computação em nuvem.

O termo “Web 2.0” ganhou força a partir de uma conferência de 2004 com esse nome, organizada pela O’Reilly Media, e foi explicado por Tim O’Reilly num artigo de 2005 (O’Reilly).

Não foi uma atualização técnica, mas uma mudança na filosofia.

As características-chave da Web 2.0 incluíam:

  • O conteúdo gerado pelo usuário: blogs (o WordPress, por exemplo, nasceu em 2003), wikis, sites de compartilhamento de vídeo como o YouTube, lançado em 2005, e de fotos como o Flickr;
  • A web social, com plataformas como MySpace e Facebook, que permitiam perfis pessoais e conexões, e serviços que ficavam mais valiosos à medida que mais pessoas os usavam, como o algoritmo de busca do Google, que interpreta links como “votos” de confiança.

O modelo de negócios mudou: de empresas que vendiam software para softwares gratuitos em que o produto real eram os dados do usuário e a sua atenção (olhinhos fixados na tela, prontos para receber uma impressão de anúncios online).

Duas empresas vieram a definir a web social:

I. Facebook: lançado em fevereiro de 2004 por Mark Zuckerberg.

Mark Zuckerberg em 2004, no início do Facebook
Titio Zuck para os íntimos, em 2004. Fonte: Threads.

Inicialmente uma rede exclusiva para estudantes universitários, o Facebook se espalhou rapidamente.

Com sua interface limpa e o foco em identidades do mundo real, seu número de usuários cresceu explosivamente, passando de 1 bilhão de usuários ativos por mês em outubro de 2012 (Meta).

O News Feed (introduzido em 2006) e o botão “Curtir” (introduzido em 2009) foram cruciais para o seu sucesso.

Para consolidar seu domínio, o Facebook comprou o Instagram em 2012 e o WhatsApp em 2014, este num negócio de cerca de US$ 19 bilhões, somando dinheiro, ações e ações restritas para a equipe (Meta).

II. Twitter: surgiu de uma sessão de brainstorming em 2006, com Jack Dorsey propondo um serviço para compartilhar atualizações de status curtas (140 caracteres) via SMS.

A criação do Twitter envolve quatro grandes nomes: Jack Dorsey, Noah Glass, Biz Stone e Evan Williams.

A plataforma foi lançada ao público em julho do mesmo ano (2006).

O IPO da rede social veio em novembro de 2013 (foto abaixo):

Jack Dorsey, Biz Stone, Evan Williams e Dick Costolo na Bolsa de Nova York, no IPO do Twitter em 2013
Na imagem: da esquerda para a direita, Jack Dorsey, Biz Stone, Evan Williams e Dick Costolo posam juntos no pregão da Bolsa de Nova York, em 7 de novembro de 2013, durante o IPO do Twitter. Dorsey, Stone e Williams são cofundadores da plataforma; Costolo foi o CEO responsável por liderar a empresa até sua abertura de capital. Fonte: Independent UK News.

Diferente do Facebook, muitas das características-chave do Twitter, como a hashtag (#), proposta por um usuário em 2007, e o retweet (RT), foram inventadas pelos próprios usuários.

Isso ajudou o Twitter a se tornar uma plataforma vital para informações em tempo real e comunicação direta.

O Twitter foi comprado em outubro de 2022 por Elon Musk por US$ 44 bilhões (AP) e, em julho de 2023, começou a ser rebatizado de X (AP). Esta é uma outra história, mas eu não poderia deixar de citá-la neste ponto da nossa conversa.

Elon Musk entrando na sede do Twitter em San Francisco, em 2022
Foto icônica de Elon Musk entrando no Headquarters em San Francisco (Califórnia) depois da aquisição da empresa. Fonte: GlobalNews.

Bom, vamos seguir e compreender outros aspectos que contribuíram, e muito, para o panorama atual da internet.

Um deles foi o anúncio do primeiro iPhone, pela Apple, em 9 de janeiro de 2007, um divisor de águas que mudou como e onde as pessoas acessavam a internet (Apple).

Antes do iPhone, a internet móvel era uma experiência frustrante.

O iPhone transformou a internet de um destino visitado em um computador de mesa em uma presença constante na palma da mão.

Steve Jobs apresentando o primeiro iPhone na Macworld de 2007
Steve Jobs exibindo o iPhone, na Conferência Macworld, 2007. Fonte: TheGuardian.

Duas inovações foram responsáveis: uma interface com tela multitoque (touchscreen) e a App Store, lançada em julho de 2008.

Isso mudou tudo novamente, trazendo mais usuários, oportunidades, negócios e visibilidade em MASSA para a Internet.

A App Store, um mercado centralizado para desenvolvedores (e empresas) venderem aplicativos diretamente aos usuários, desencadeou uma onda de inovação e criou uma próspera “economia de aplicativos”.

Isso forçou uma mudança de paradigma no desenvolvimento web para uma filosofia “mobile-first” (acredite, isso foi GIGANTE).

O crescimento explosivo dos serviços da Web 2.0 e dos aplicativos móveis gerou uma demanda sem precedentes por infraestrutura de computação.

O modelo tradicional de comprar e manter servidores físicos era lento e caro.

Essa necessidade foi atendida por um novo paradigma: a computação em nuvem.

A pioneira e força dominante nesse mercado foi a Amazon, com a Amazon Web Services (AWS). O Amazon S3 (armazenamento) foi lançado em março de 2006 (AWS), e o Amazon EC2 (servidores virtuais) entrou em beta em agosto do mesmo ano (AWS).

A grande novidade era a infraestrutura em regime de pagamento conforme o uso, sem precisar comprar máquinas antes.

Isso democratizou a criação de startups, que não precisavam mais de grandes investimentos para montar um data center (ou ao menos alugar um).

Na prática, alugar um servidor virtual desses é o que muita gente conhece hoje como VPS, e eu explico o que avaliar antes de contratar um em VPS para automação com IA.

A Microsoft seguiu a visão e entrou no mercado de nuvem com o Windows Azure, lançado comercialmente em 2010 e renomeado Microsoft Azure em 2014.

As revoluções social, móvel e da nuvem não foram fenômenos independentes; elas formaram um ciclo que se reforçava mutuamente e definiu essa era.

Para pessoas da minha idade, com 30 e alguma coisa, que viram os monitores de tubo, disquetes, internet discada, bate-papo do UOL e MSN, estes avanços já eram fenomenais!

Mas ainda temos uma vasta e imprevisível estrada pela frente.

Antes da última parada, um desvio para casa.

E no Brasil? Como a Internet Chegou Aqui

Em 1989, Jon Postel, responsável pela atribuição dos domínios de topo, delegou o “.br” à equipe que trabalhava com redes acadêmicas na Fapesp. A internet ainda não existia no país; o “.br” era usado por outras redes acadêmicas, e os registros eram feitos à mão (NIC.br).

Em 1991, o Brasil teve o primeiro acesso permanente à internet. Além dos acadêmicos, foram chegando outros interessados: o terceiro setor usou a rede na conferência ECO-92, no Rio de Janeiro, e as BBSs (os sistemas de mural eletrônico da época) se organizaram para oferecer acesso.

Em 31 de maio de 1995, uma portaria dos Ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações criou o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), e no mesmo dia uma norma do Ministério das Comunicações passou a regular o uso da rede pública de telecomunicações para o serviço de conexão à internet (CGI.br). É o marco do começo da internet comercial no país.

No fim de 1995, empresas já entravam na rede, e o registro de domínios “.br”, que era manual, teve de ser automatizado em 1996.

Vamos ao nosso último ponto de parada: a contemporaneidade!

A Internet Moderna: Consolidação, Inovação e seus Descontentamentos (2016 em Diante)

A era atual da internet é marcada pela maturação e consolidação das tendências da década anterior.

A paisagem digital, antes uma fronteira aparentemente aberta, agora é dominada por um punhado de empresas “Big Tech” que exercem imenso poder econômico e cultural.

Inovações continuam em ritmo acelerado, impulsionadas por avanços em inteligência artificial, pela proliferação de dispositivos conectados (Internet of Things, IoT) e pelo surgimento de novos modelos econômicos.

As “Big Five”, isto é, Alphabet (empresa-mãe do Google), Amazon, Apple, Meta (empresa-mãe do Facebook) e Microsoft, controlam os principais pontos de estrangulamento da economia digital.

Sim, temos outras empresas emergentes de porte colossal, como a OpenAI, mas não vamos nos desviar muito da “rota” aqui.

O poder destas empresas reside justamente no ecossistema de recursos e soluções de alta eficiência que elas propõem, como o ecossistema Google, que vai do Google Drive ao Gmail, do Calendar ao Google Ads, YouTube, Gemini e ferramentas como Google Analytics, Google Tag Manager, Google Search Console, Perfil da Empresa no Google, as APIs do Google Maps e muitos outros serviços.

O grupo Meta, com Facebook, Instagram, Threads, WhatsApp, Horizon Worlds etc.

A Apple, com smartphones, smartwatches, Apple TV, serviços de nuvem, notebooks, desktops etc.

A própria Microsoft, com sistema operacional, Azure, pacote Office, Copilot, Teams etc.

Toda essa concentração de poder levou a preocupações antitruste e investigações nos EUA e na Europa, focadas em práticas anticompetitivas como o “autopreferenciamento” entre estas gigantes do mercado.

Isso criou um paradoxo de centralização: a internet, projetada como uma rede de redes sem controle central, evoluiu para um sistema em que a camada de aplicação, onde a maioria dos usuários vive, é altamente centralizada em torno de poucos e poderosos provedores.

A internet moderna é cada vez mais moldada por algoritmos e aprendizado de máquina (Inteligência Artificial e Machine Learning), que automatizam decisões, personalizam experiências e criam novas formas de interação.

A IA agora alimenta motores de recomendação (YouTube, Spotify, Amazon), faz a curadoria de feeds em redes sociais e atua na defesa em cibersegurança.

A explosão recente da IA generativa (como o ChatGPT, que roda sobre os modelos de ponta da OpenAI) continua revolucionando e trazendo mais e mais desafios de qualidade e credibilidade da informação, como as alucinações dos modelos de linguagem.

A Internet das Coisas (IoT), que conecta objetos físicos à internet (casas e componentes inteligentes, wearables, veículos conectados), cria um fluxo constante de dados sobre o mundo físico, que por sua vez alimenta e aprimora os sistemas de IA.

A combinação de conectividade móvel, infraestrutura de nuvem e algoritmos possibilitou novas economias, como a “gig economy” (Uber, Airbnb) e a “streaming economy” (Netflix, Spotify, YouTube).

Contudo, as mesmas tecnologias que tornaram a internet tão poderosa também geram efeitos colaterais (e sim, precisamos falar deles):

  • Desinformação e notícias falsas: plataformas de mídia social, com algoritmos otimizados para maximizar o engajamento, tornaram-se vetores eficientes para a propagação viral de informações falsas.
  • Privacidade de dados: o modelo de negócios dominante da internet de consumo se baseia na coleta e análise de dados pessoais para publicidade direcionada, um modelo que muitos autores chamam de “capitalismo de vigilância”. Vazamentos de grandes plataformas e escândalos como o da Cambridge Analytica com o Facebook mostraram o tamanho do problema. No Brasil, é esse o terreno da LGPD.
  • Saúde mental: há uma preocupação crescente com a ligação entre o uso pesado de mídias sociais e problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, especialmente entre adolescentes.
  • Cibersegurança: a internet moderna enfrenta ameaças crescentes, de ransomware e ataques impulsionados por IA até guerra cibernética. O Morris Worm, em 1988, criado por um estudante de pós-graduação de Cornell, foi um dos primeiros grandes incidentes de segurança na internet: atingiu cerca de 6.000 dos aproximadamente 60.000 computadores conectados (FBI) e levou à criação do CERT Coordination Center, na Universidade Carnegie Mellon, para coordenar a resposta a incidentes desse tipo.

NOTA IMPORTANTE DO AUTOR: A baixa barreira de entrada no mercado para empresas que querem prestar serviços e soluções em sistemas web, back-end e automações gera vulnerabilidades em contratações irresponsáveis. Sofremos com a falta de qualificação de empresas e com contratantes que também não têm repertório mínimo para cobrar e acompanhar o desenvolvimento de projetos. Ainda mais agora, com IA e VibeCoders, vejo problemas e vulnerabilidades seríssimos “logo ali” na frente. Tenha CAUTELA e ATENÇÃO ao contratar soluções de tecnologia. É por isso que, no nosso trabalho, a gente separa o problema por camadas antes de mexer em qualquer coisa, como descrevo no Protocolo L0 : L7.

Abordar esses problemas exige mais do que meras soluções técnicas (operacionais); requer repensar a engenharia e a arquitetura de sistemas que têm contato direto com o público.

Linha do Tempo da Internet (Resumo)

  • 1957: a União Soviética lança o Sputnik I.
  • 1958: os EUA criam a ARPA.
  • 1961 a 1966: Kleinrock, Baran e Davies desenvolvem, de forma independente, as ideias da comutação de pacotes.
  • 1962: Licklider descreve a “Rede Galáctica” e assume o programa de computação da ARPA.
  • 1969: primeira mensagem da ARPANET, entre a UCLA e o SRI (29 de outubro); quatro nós no fim do ano.
  • 1971: Ray Tomlinson cria o e-mail em rede e adota o “@”.
  • 1974: Cerf e Kahn publicam o artigo que dá origem ao TCP/IP.
  • 1983: a ARPANET migra para o TCP/IP (1º de janeiro); o DNS é especificado (novembro).
  • 1985: começa o programa NSFNET.
  • 1988: o Morris Worm atinge a internet.
  • 1989: Berners-Lee escreve a proposta da web no CERN; o “.br” é delegado ao Brasil.
  • 1990: primeiro navegador e primeiro servidor web no CERN; a ARPANET é desativada.
  • 1991: primeiro acesso permanente à internet no Brasil.
  • 1993: lançamento do Mosaic; o CERN coloca a web em domínio público (30 de abril).
  • 1994: nascem a Netscape, o Yahoo! e a Amazon.
  • 1995: fim do financiamento da espinha dorsal da NSFNET (abril); criação do CGI.br e começo da internet comercial no Brasil (maio); IPO da Netscape (agosto).
  • 1998: nasce o Google; processo antitruste contra a Microsoft.
  • 2000: pico e estouro da bolha “.com”.
  • 2004: Facebook e a conferência que popularizou o termo “Web 2.0”.
  • 2006: AWS, Twitter.
  • 2007 e 2008: iPhone e App Store.
  • 2022 e 2023: o Twitter é comprado por Elon Musk e vira X; explode a IA generativa.

Considerações Finais

Se você chegou até aqui, primeiramente, parabéns!

A história da internet, como vimos, nasceu no contexto da Guerra Fria, financiada por uma agência militar de pesquisa, com o objetivo de compartilhar recursos de computação entre centros de pesquisa, enquanto outros estudos da época buscavam redes de comunicação capazes de sobreviver a um ataque.

A Internet foi então cultivada nos corredores colaborativos e não comerciais da academia, onde seu propósito se desviou do compartilhamento de máquinas para, inesperadamente, a conexão humana.

Em seguida, explodiu em acesso público e se tornou uma força comercial e social global, impulsionada pela acessibilidade da World Wide Web e do navegador gráfico.

Cada era dessa história foi marcada por uma tensão persistente entre seu propósito projetado e seu uso emergente.

A jornada da internet está longe de terminar.

Seu próximo capítulo será definido por como nós, como sociedade global, optaremos por governar essa poderosa arquitetura de conexão.

Os desafios que enfrentamos não são meramente técnicos; são sociais, econômicos e políticos.

Eles levantam questões fundamentais sobre privacidade, liberdade de expressão, poder corporativo e a própria natureza da verdade.

A história da internet nos ensina uma lição clara: seu futuro não é predeterminado por sua tecnologia.

Ele será decidido pelas escolhas humanas que fazemos sobre os valores que incorporamos em seu código, os modelos de negócios que permitimos e as regras que estabelecemos para mitigar seus danos, ao mesmo tempo em que preservamos seu imenso potencial para o bem.

Como sempre sigo repetindo: a tecnologia não vai retroceder. Não ignore a IA e a internet.

Caia na prática e em testes sempre que possível. E, quando for aplicar tecnologia no seu negócio, comece pela conta e pelo problema, não pela ferramenta, como eu apresento em Tecnologia Aplicada.

Aprenda, adapte, evolua!

No topo desta página existe um botão com a opção de download de todo o conteúdo em markdown, para que você possa utilizar como referência no trabalho com seu agente de IA. O download é gratuito, não pede cadastro, não pede e-mail e você não entra em nenhuma lista. É um conteúdo 100% público, para qualquer pessoa acessar e baixar.

Eu também mantenho um grupo no WhatsApp. Ele é gratuito e vai continuar gratuito, mas é um grupo que me é muito caro: eu tenho um carinho enorme por ele e zelo muito pela qualidade do que circula ali. Por isso, a entrada passa por uma conversa. Me chame no WhatsApp, a gente conversa e eu entendo se o grupo faz sentido para você. Essa seleção cuidadosa existe para proteger a qualidade dos conteúdos, não para restringir a conversa entre as pessoas do grupo.

Precisa de ajuda? Fale comigo no WhatsApp. Vou fazer questão de te acompanhar de ponta a ponta.

Perguntas frequentes

Quem inventou a internet?

Ninguém sozinho. A internet é resultado do trabalho de muita gente ao longo de décadas: Licklider imaginou a rede, Kleinrock, Baran e Davies criaram a comutação de pacotes, Lawrence Roberts planejou a ARPANET, e Robert Kahn e Vinton Cerf criaram o TCP/IP, os protocolos que permitem que redes diferentes conversem entre si.

Quando surgiu a internet?

A primeira mensagem da ARPANET, a rede que deu origem à internet, foi enviada em 29 de outubro de 1969, da UCLA para o Stanford Research Institute. Em 1º de janeiro de 1983, a ARPANET passou a usar o TCP/IP, data que muita gente considera o nascimento da internet como a conhecemos.

Qual a diferença entre internet e World Wide Web?

A internet é a rede de redes que liga os computadores do mundo pelo TCP/IP. A World Wide Web, criada por Tim Berners-Lee no CERN a partir de 1989, é um serviço que roda sobre a internet, com páginas em HTML, endereços (URL) e o protocolo HTTP. O e-mail, por exemplo, é outro serviço da internet que não depende da web.

A internet foi criada para sobreviver a uma guerra nuclear?

Não exatamente. Os estudos de Paul Baran, na RAND, buscavam uma rede de comunicação capaz de sobreviver a um ataque, mas a ARPANET foi criada para compartilhar recursos de computação entre centros de pesquisa. Os próprios pioneiros, num texto da Internet Society, chamam a ligação direta entre a ARPANET e a guerra nuclear de boato.

Quando a internet chegou ao Brasil?

O domínio .br foi delegado ao país em 1989, para a equipe de redes acadêmicas da Fapesp. O primeiro acesso permanente à internet aconteceu em 1991, e a internet comercial começou em 1995, com a criação do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) em 31 de maio daquele ano.

Referências

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