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Pilar 03 · Tecnologia Aplicada

Taxonomia de Alucinações em LLMs: definição, tipos e mitigação

Atualizado em 5 min de leitura
Taxonomia de Alucinações em LLMs: definição, tipos e mitigação

Alucinações em LLMs (Large Language Models ou Modelos de Linguagem de Grande Escala) são inevitáveis (afinal de contas, são sistemas computáveis) e, por isso, entender sua taxonomia é essencial para que possamos projetar aplicações eficientes e seguras.

Neste conteúdo vamos fazer uma revisão do paper de Manuel Cossio, publicado em agosto de 2025, originalmente com o título de “A comprehensive taxonomy of hallucinations in Large Language Models“.

O paper propõe uma definição formal do fenômeno via teoria da computação, estrutura os tipos centrais (intrínsecas vs. extrínsecas; factualidade vs. fidelidade) e fecha com diretrizes de mitigação em arquitetura e produto.

Você pode acessar o paper na íntegra, clicando aqui.

Definição formal e inevitabilidade das alucinações

O trabalho parte de uma condição formal:

Dado um LLM computável e uma função de verdade computável, sempre existirão entradas para as quais o modelo diverge do valor correto (em qualquer estágio de treino).

A prova recorre a diagonalização, mostrando limites intrínsecos do que é computável por LLMs.

A consequência prática é direta: não há caminho para “zerar” alucinações; o objetivo realista é reduzir frequência e impacto, com mecanismos de detecção, contenção e validação humana.

Teoremas centrais abordados no paper:

Teorema / CorolárioEnunciado (síntese)Implicação prática
Teorema 1: LLMs enumeráveis computavelmente irão alucinarPara qualquer conjunto computavelmente enumerável de LLMs, existe uma função de verdade computável f tal que todos os estados de todos os LLMs desse conjunto alucinam em relação a f.LLMs atuais (limitados por tempo polinomial) são inerentemente propensos a alucinar; não é possível eliminar totalmente.
Teorema 2: Alucinação em infinitas questõesPara qualquer conjunto computavelmente enumerável de LLMs, existe uma f computável tal que todos os estados de todos os LLMs alucinam em infinitas entradas.Alucinações não são incidentes isolados; o problema é persistente ao longo de vastos domínios de entrada.
Teorema 3: Qualquer LLM computável irá alucinarPara qualquer LLM computável individual, existe uma f computável tal que todo estado desse LLM alucina; existe também f’ para a qual a alucinação ocorre em infinitas entradas.A inevitabilidade se aplica a modelos específicos (atuais e futuros), independentemente de arquitetura.
Corolário 1: Incapacidade de auto-eliminaçãoNenhum LLM computável consegue impedir-se de alucinar por mecanismos internos.Auto-correção e técnicas de prompting são insuficientes sozinhas; é preciso salvaguardas externas e validação humana.

Núcleo da taxonomia: intrínsecas vs. extrínsecas; factualidade vs. fidelidade

A taxonomia organiza o fenômeno em dois eixos amplamente aceitos.

As Alucinações intrínsecas: contradizem o próprio contexto ou a lógica interna do texto gerado (ex.: inconsistências dentro de um resumo).

As Alucinações extrínsecas: introduzem entidades, fatos ou eventos que não constam do contexto nem da realidade observável (típicas quando o modelo tenta “preencher” lacunas).

No segundo eixo, a factualidade avalia correção objetiva (verdade factual) e fidelidade mede adesão ao “insumo”.

Isto é, um modelo pode ser fiel e não factual (reproduzindo um erro do documento de origem) ou factual e pouco fiel (acrescentando conteúdo correto, porém não solicitado).

Essas distinções orientam tanto métricas quanto táticas de mitigação.

Implicações para uso real: Produtos e Risco

Assumida a inevitabilidade de erro, precisamos ter em mente que as áreas que exigem precisão (matemática avançada, lógica, decisões de alto risco em saúde, direito e finanças) requerem escrutínio reforçado e human-in-the-loop (participação humana estratégica em pontos de uma determinada automação).

Sem integração de guardrails (mecanismos de segurança), bases de conhecimento ou supervisão, não é seguro delegar decisões críticas ao modelo.

Em termos de governança, o recorte teórico do estudo sustenta a necessidade de políticas de uso, limites de escopo e auditoria contínua.

Isto se conecta muito com o que tenho visto em aspectos práticos e no trabalho com Inteligência Artificial no dia a dia.

Mesmo os modelos mais avançados (escrevi isto no final de setembro de 2025, e reforço revisando este conteúdo em agosto de 2026) como Grok 4.6 High, Gemini 3.1 Pro e GPT-5.6 Sol High, podem cometer erros e ainda alucinam.

Devo admitir que de forma muito mais sútil e pontual, se eu me lembrar de quando comecei a trabalhar com LLMs ainda em dezembro de 2022. É um mercado que está evoluindo de uma forma inacreditável!

Melhoraram muito em performance, latência e preço, seja em perguntas diretas, solicitações que demandam mais recursos computacionais, como deep search, agent mode e no trabalho com bases de dados (sejam por planilhas maiores, Bancos de Dados ou Vector Stores).

Mitigação híbrida e sensível ao contexto de Alucinações

Uma coisa fica muito clara com todo o conteúdo técnico do artigo: não existe uma “bala de prata”.

O paper converge para sistemas híbridos que combinam: uso de ferramentas (cálculo, execução de código, consultas), retrieval grounding para reduzir dependência da memória paramétrica, fine-tuning com curadoria/adversarial filtering e guardrails (validadores lógicos, filtros de regras, correções baseadas em conhecimento).

Em situações de incerteza, fallbacks (plano ou opção de contingência) baseados em regras (recusar resposta, pedir esclarecimento, escalar a um humano) reduzem o dano.

A recomendação é tornar o pipeline sensível ao contexto: metas mais rígidas e recuperação obrigatória em domínios críticos; tolerância controlada em tarefas criativas, sempre com sinalização de incerteza ao usuário (próxima cadeia do processo).

Considerações finais

Em minha visão, o valor do paper está em três entregas:

(i) Uma definição formal que desloca a ambição de “eliminar” para gerenciar alucinações;

(ii) Uma taxonomia operacional que ajuda a diagnosticar erros na prática;

(iii) Um roteiro de mitigação que integra arquitetura, processo e produto.

Para PMEs e equipes de dados, a mensagem é pragmática e objetiva: delimite escopo, meça por tarefa, maximize rastreabilidade (fontes + validadores) e mantenha gente (qualificada) no circuito (processo de ponta a ponta) onde a consequência de erro é alta.

Referência

COSSIO, Manuel. A comprehensive taxonomy of hallucinations in Large Language Models. Barcelona: Universitat de Barcelona, 2025. Preprint (arXiv). Disponível em: arXiv:2508.01781. Acesso em: 29 set. 2025.

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